PEDRO CALMON TREMEU!
São duas da madrugada, ainda tô meio tonto por causa da gelada recentemente repartida com a rapaziada que resolveu levar a discussão ali pro DCE depois do evento, mas eu fiquei devendo esse texto pro Márcio e não há melhor oportunidade pra escrever do que quando a gente ainda tá quente da discussão. É impossível cometer meu texto sem antes agradecer a todos que trabalharam duro nas últimas semanas pra armar o circo. Tô falando especialmente com os representantes das (infelizmente) poucas turmas que resolveram eleger representantes, com os (infelizmente) raros remanescentes do (infelizmente) extinto CA e com os (felizmente!) muitos alunos que marcaram presença.
A casa lotou. Tinha gente saindo pela janela. Mesmo. Não teve um só boneco que tenha pedido a palavra e, ao se virar com o microfone pra encarar a massa, não tenha deixado os olhos arregalarem, a mãozinha chacoalhar ou a voz falhar. Até a máquina fotográfica da Jaqueline deu uma meia trava quando soube que tinha de retratar o momento. Foi assustador. Todo mundo tremeu, todo mundo medrou. Com o corredor polonês que tinha se formado, se alguém contasse a historinha errada ia ficar prejudicado na hora de sair. Havia ali um corpo vivo, pulsando com o sangue de seiscentas pessoas, todo mundo respirando junto, mil e duzentos olhos atentos, todo mundo cortando o fôlego nos momentos mais tensos. Fiz esta estimativa de seiscentas cabeças compartilhando um suco de cevada, mas acho que a gente chutou bem, porque o Luiz Felipe tem experiência com casa cheia.
Por outro lado, tem muito aluno e professor que acreditou que a gente ia conseguir juntar no auditório apenas os malucos de plantão. Eles estavam todos lá, mas a casa bombou com todo tipo de gente. Fico preocupado com esse tipo de creontagem que mais parece torcida pra tudo derreter do que crítica pro movimento ganhar outros contornos. Não podemos permitir que nossa mobilização seja menosprezada ou banalizada. O que acaba de acontecer foi um instante único, que quebrou a palhaça de todos os pessimistas.
Quem estava lá ouviu o decano dizer que se considera a memória viva da nossa faculdade e que essa memória não se recorda de nenhuma outra mobilização que tenha chegado no chinelo da galera que conseguimos juntar ali no auditório. Mais uma vez chutando, vou estimar aí pra essa memória o ano de 1980. Ora, estávamos ainda sob a batuta do regime militar. A anistia tinha rolado havia um ano somente. A estudantada tava lá, em cima do lance, e os caras não descansavam. Mas parece que a gente superou isso, pelo menos ali na FACC. Essa foi nossa maior vitória, e é bom que ninguém esqueça do que viu, pra não deixar a coisa morrer.
A primeira coisa a se ponderar é acerca dos resultados obtidos pela mobilização. Ouvi gente dizendo que foi um fracasso, que a discussão não levou a nada. Num primeiro momento, talvez seja tranqüilo se deixar levar por essa idéia – eu mesmo tive o impulso de concordar com ela – mas é importante que a gente encare essa ocasião como o início de um processo de retomada das rédeas do destino da FACC por aqueles que estão dentro da carroça. A gente está aprendendo a se organizar. Isso leva algum tempo. Pela primeira vez, ao invés de cochichar um número frio – mil e setecentos alunos – nós pudemos sentir na carne o que significa metade (!!!) disso. Passado o susto, mãos à obra. Vamos ter que avançar melhor no segundo encontro, porque esse primeiro serviu mais para que a gente pudesse sentir a pressão do que pra tocar a máquina.
Segundo, é importante lembrar que mesmos aqueles que pediram a palavra e foram vaiados estão ali pra brigar pelo nosso coletivo tanto quanto aqueles que só ganharam aplausos. Não teve um só malandro ali que tenha, deliberadamente, escolhido jogar contra. Com aquela multidão ávida por informações e soluções, nem mesmo qualquer reencarnação de antigos pacientes do sanatório que um dia funcionou no palácio ousaria sabotar o troço. É preciso ter generosidade e paciência pra lidar com o diferente, certo? Claro que, no meio do tiroteio, eu também não tenho tempo pra ficar discutindo se foi o reitor de 1987 ou o de 1992 que prometeu e não cumpriu construir um prédio só pra nós. Estamos no meio de uma crise e precisamos agir, não evocar fantasmas de gestões extintas pra justificar o caos de hoje. No entanto, isso não invalida aquele debate, somente o adia (pra saber onde estamos hoje precisamos consultar o mapa), o que nos leva ao terceiro ponto.
Como administrador, fui treinado pra resolver problemas. O sujeito está em frente à sua casa de madeira, que está sendo consumida pelas labaredas de um incêndio. A prioridade é forçar a entrada e resgatar a patroa, Romarinho e Moniquinha. Depois, o cara tem que tirar dali o Ringo e a Princesa. O terceiro passo é apagar o incêndio. Só então o mané vai sentar na calçada, descansar a cabeça entre as mãos chamuscadas e ponderar sobre quais foram as razões que o levaram a aceitar morar numa choupana de madeira, depois se no ano que vem ele vai mudar para um edifício de concreto ou se vai embarcar num barco com a família Schurmann e rumar pra um lugar onde não haja incêndios. Num próximo momento, é possível que o sujeito passe a filosofar sobre o que, realmente, é um incêndio, se é uma coincidência da natureza, uma projeção de sua própria consciência ou um evento divino. Na FACC, estamos no meio de um incêndio. É possível que eu seja muito mais obtuso (e que agora esteja muito mais entorpecido de cerva) do que muitos colegas, mas estou disposto a dar o passo número um antes do número cinco. Se no dia 1° de agosto estiver todo mundo em sala de aula, topo discutir no dia 2 se a cartucheira do diretor de 1976 era mais taluda do que a do diretor de 1998.
O quarto e último ponto decorre desse anterior. Por mais que a diretora tenha mostrado que algumas soluções estão sendo propostas e encaminhadas pelo reitor, ainda estamos correndo risco, e não podemos desfazer a mobilização em torno do problema imediato. Daí vêm nossas próximas dificuldades. Primeira: vai ser marcada uma nova reunião para dar conta do andamento do problema no fim de junho ou início de julho. Caso as coisas não estejam correndo bem, vamos ter que botar mais pressão. Só que essa reunião vai rolar nas férias dos alunos. Vai todo mundo comparecer? A resposta tem que ser positiva, porque vocês já viram que a fila só anda se tiver um montão de gente querendo ocupar aquele lugar. Tá todo mundo disposto a enfrentar o engarrafamento de volta de Iguabinha, Iguaba e Iguaba Grande pra fazer tremer o auditório? Segunda dificuldade: cadê a representatividade dos alunos? Só tenho conversado com os representantes dos cinco primeiros períodos. Cadê o CA forte? O Ayres está certo em reclamar da ausência de alunos de Administração nas reuniões, mas estes representantes devem ser legitimados pelo coletivo de estudantes.
Estamos juntos!
Zeca.
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